Cruzamos caminhos
às vezes na escrita. Outras vezes não!
Vemo-nos por vezes no rio, presença constante nos seus textos. Outras vezes não!
Partilhamos às vezes o olhar com que vemos o mundo. Outras vezes não!
Mas sempre nos encontramos nos laços
que nos unem!
... às vezes, também não...-
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"Nem sempre os dias são dias passados
A ver os restos dum porto de abrigo
Quando era pequenino era soldado
Os cartuchos punha-os dentro do umbigo
(...)
José Afonso
Nem sempre
os dias que passam são passado. O vazio que fica de uma madrugada em
branco também abafa a manhã que quer nascer num novo dia, escondendo-se
atrás de sons e pequenos nadas, que nos acordam para uma verdade que não
queremos ouvir...
Não,
nem sempre os dias que passam ficam no passado. Quantos e quantos
forçam a entrada numa palavra embrulhada em memórias que nos obrigámos a
esquecer ao fechar a gaveta das águas passadas sem ver que, dos lados, a
água fica sempre a escorrer...
Nem
sempre os dias que passam ficam no passado. Adormecem, esmorecem, mas
num qualquer dia normal, como tantos os outros, agitam-se num quadro que
se rasga e deixa sair a maré que continha, numa praia deserta, e invade
a realidade com uma onda sem fim...
Nem
sempre os dias são dias passados. Revivemos os anos numa espiral de
lembranças, recortes de memórias, gritos abafados, que nos chegam duma
planície alentejana onde, aparentemente nada se passa e, no entanto,
tudo se levanta.
Nem
sempre os dias são dias passados. Arrumamos o estojo de primeiros
socorros de palavras seguras e lugares perfeitos e levamo-lo connosco
para tapar as feridas com um penso rápido, mas nem sempre elas ficam no
dia que passa...
Liliana