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(SEM QUE NISSO INTERVENHA A DISTÂNCIA NO TEMPO, HÁ RECORDAÇÕES FÁCEIS E RECORDAÇÕES DIFÍCEIS... )

Sábado, 18 de Fevereiro de 2012

NUM ECO DA INVENÇÃO DE UM OUTRO (...) O POEMA TRAZ CONSIGO A VOZ QUE ELE PRÓPRIO ESCREVEU...

"ESSA VOZ EMPRESTADA QUE UM DIA TE INVENTOU PARA O AMOR
A RAZÃO ENQUANTO ARDIA, A ÚNICA RAZÃO"
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É uma voz. segura e trémula a ouves / e
rigorosa é; e diz em voz alta a litania.
Não sabes bem se é do passado
que vem; ou se do futuro chega
despedindo-se. sabes que não é presente
a luz, a chama ou o luar que nela vibra.
Recordas, porque inventas: Ela é o eco
da invenção de um outro, quando diz

o teu rosto inclinado pelo vento;
a feroz brancura dos teus dentes.
sabes então que feroz é também essa voz

que de cor diz os versos. E tu escutas
sem conto essa ferocidade que se quebra
e de um para o outro verso estremece:
o triunfo cruel das tuas pernas;
colunas em repouso se anoitece;

A  voz não a ouves agora. Não está aqui.
Mas há uma praia do tempo, uma noite branca
fulgurando entre mundos: e o poema
regressa à impossível presença.
Lês em silêncio; os dedos tacteando
o eco de um eco. Recordas segundo a invenção.
E o poema traz consigo a voz que ele próprio
escreveu: essa voz emprestada
que um dia te inventou para o amor:

a razão enquanto ardia, a única razão.


(Manuel Gusmão, in «Migrações do Fogo», Na Noite das Imagens)
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('Paisaje', óleo sobre tela de Alfredo Chala)

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