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Tinha-me despedido, bem sei. Disse que sairia para outras paragens e assim farei, mas hoje, estando ainda por cá, decidi aqui dar conta de um presente que recebi - uma antologia de poemas de amor.Folheio-a e, em leituras ao acaso, confirmo uma evidência: para os poetas, o amor parece ser, obrigatoriamente, uma saga cruel, rimando com solidão, sofrendo de traição, chorando a morte ou a vida, em aflição, vingando o esquecimento e o cansaço.
Procuro algo luminoso, algo que fale de encontro sem melancolia, de sossego sem medo, de partilha sem posse, de música estelar sem a invasão definitiva do silêncio. Algo adequado a um inverno sem frio na alma e no corpo. Algo para ler no aconchego da lareira.
Parece difícil...
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Parece difícil...
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Mas eis que o amor é salvo! Pelo Luís Miguel Nava, em 'Paixão':
Ficávamos no quarto até anoitecer, ao conseguirmos
situar num mesmo poema o coração e a pele quase podíamos
erguer entre eles uma parede e abrir
depois caminho até à água.
Quem pelo seu sorriso então se aventurasse achar-se-ia
de súbito em profundas minas, a memória
das suas mais longínquas galerias
extrai aquilo de que é feito o coração.
Ficávamos no quarto, onde por vezes
o mar vinha irromper. É sem dúvida em dias de maior
paixão que pelo coração se chega à pele.
Não há então entre eles nenhum desnível
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(Obrigada ao poeta pela belíssima descrição da paixão. Obrigada à família Calado pelo excelente livro!)
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(*) - Post (re)editado e corrigido...





















