.
(SEM QUE NISSO INTERVENHA A DISTÂNCIA NO TEMPO, HÁ RECORDAÇÕES FÁCEIS E RECORDAÇÕES DIFÍCEIS... )

Sexta-feira, 24 de Dezembro de 2010

AGRADECENDO UMA PRENDA NATALÍCIA...

(*)

Tinha-me despedido, bem sei. Disse que sairia para outras paragens e assim farei, mas hoje, estando ainda por cá,  decidi aqui dar conta de um presente que recebi - uma antologia de poemas de amor.
Folheio-a e, em leituras ao acaso, confirmo uma evidência: para os poetas,  o amor parece ser, obrigatoriamente, uma saga cruel, rimando com solidão, sofrendo de traição, chorando a morte ou a vida, em aflição, vingando o esquecimento e o cansaço. 
Procuro algo luminoso, algo que fale de encontro sem melancolia,  de sossego sem medo, de partilha sem posse, de música estelar sem a invasão definitiva do silêncio. Algo adequado a um inverno sem frio na alma e no corpo. Algo para ler no aconchego da lareira.
Parece difícil...
..
Mas eis que o amor é salvo! Pelo Luís Miguel Nava, em 'Paixão':

Ficávamos no quarto até anoitecer, ao conseguirmos
situar num mesmo poema o coração e a pele quase podíamos
erguer entre eles uma parede e abrir
depois caminho até à água.

Quem pelo seu sorriso então se aventurasse achar-se-ia
de súbito em profundas minas, a memória
das suas mais longínquas galerias
extrai aquilo de que é feito o coração.

Ficávamos no quarto, onde por vezes
o mar vinha irromper. É sem dúvida em dias de maior
paixão que pelo coração se chega à pele.
Não há então entre eles nenhum desnível
.
(Obrigada ao poeta pela belíssima descrição da paixão. Obrigada à família Calado pelo excelente livro!)
.
(*) - Post (re)editado e corrigido...

Terça-feira, 21 de Dezembro de 2010

FIM DO ANO, NATAL, etc. e tal...

.
E porque: 
"(...)
De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja  estúpido!  Compre  imediatamente um relógio de pulso antimagnético.) 
-
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante. 
-
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica. -
Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
(...)"
... eu saio, de mansinho, para outras paragens. Regressarei como nova, tal qual o ano que aí vem!
.
(Citação de 'Um Poema de Natal', de António Gedeão e pintura de Claude Monet)

MANTENDO AS CORES QUENTES ...

... mesmo que já no inverno!
.
('Inverno', de Cristiane Campos)
.

Segunda-feira, 20 de Dezembro de 2010

PARA HOJE, UM POEMINHA... AMOROSO!

...e uma cesta de flores do campo!
 (Na peculiar simplicidade da escrita de Cora Coralina) 

.
Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu...
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu...
E eu,
quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema,
o verso;
te deixará pasmo, surpreso, perplexo...
.
.('Poeminha amoroso', de Cora Coralina)

Domingo, 19 de Dezembro de 2010

HELENAMENTE...

 .
CLAREANDO A NOITE
.
Há no silêncio que me embrulha
inesperadas janelas
abertas por pensamentos
de que não sei as sementes
nem o chão em que germinam
.
H.D.
.
('Mascarón', óleo sobre tela de Mario Carreño)

Sábado, 18 de Dezembro de 2010

NESTE 'INVERNO' SEM FRIO...

 .
Três anos depois, continuo a considerar este sítio, iniciado a 18 de Dezembro de 2007, não tanto como um meio de comunicar, mas mais como um organizador da minha memória. Por essa razão me tenho defendido de estabelecer quaisquer relações com 'meios bloguistas' e 'comunidades virtuais', que não me interessam de todo. 
No meu 'Inverno' (que começou assim) ocupo-me, na maior parte dos dias, das coisas de que gosto, do que me dá realmente prazer, fazendo-o sem recados ou mensagens para  alguém em particular. 
No entanto, sei que sou lida por um leque alargado de amigos,  sendo que alguns constam dos seguidores visíveis na aplicação lateral, outros não. Amigos aqui silenciosos, quase sempre,  mas que me telefonam de imediato, se por qualquer razão me 'calo', ou mudo de registo nas escolhas da pintura ou poesia que posto, ou nas esparsas notas pessoais  me interpretam preocupada, triste, ou desiludida.
São então esses, e mais os  poucos que  aqui se manifestam, com frequente e carinhosa atenção, que  hoje me fazem  dizer que, afinal...
.
I love being here with you!
.
...
I love the East, I love the West
North and South, they're both the best
But I only want go there as a guest
Cause I love being here with you

I love the sea, I love the shore
I love the rocks and what is more
You and they never be a bore
Cause I love being here with you
.
Singing in the shower
Laughing by the hour
Life is such a breezy game
I love all kinds of weather
As long as we're together
Oh I love to hear you say my name
.
I love good wine, fine cuisine
Candle light I love the scene
Cause baby if you know just what I mean
I love being here with you
 .
I like a Dance by Fred Astaire,
And Brando's eyes, Yul Brynner's hair.
But I think to tell you's only fair,
That I love being here with you.
.
And Cary Grant, oh do-dah-day,
His utter charm takes me away.
But don't get me wrong, how do you say,
I love being here with you.
.
Basie's band a-swingin',
I like Ella's singing.
'Cause there's something else, you know,
They know how to say it,
They know how to play it,
They wind it up and let it go.
.
I love the thrill of New York shows.
I'd love to kiss Durante's nose.
But I'll like to say before I close,
I love being here with you

Sexta-feira, 17 de Dezembro de 2010

DESTA VEZ FICOU MESMO ÓRFÃ...

BALANÇO MUITO PESSOAL...

.
Sei que a época é de crise dura. 
Sei que uma percentagem muito elevada da população mundial vive em condições deploráveis e sei que para muitos, mas mesmo muitos milhões de pessoas, não há qualquer esperança de mudança.
Sei que pessoas que me são próximas, com quem me preocupo sempre e de quem gosto  a sério, passaram por momentos complicados neste ano.
Sei que algumas delas estão ainda 'em trânsito', por crises complexas.
Mas este é um balanço muito pessoal, como sempre foram muito pessoais os balanços que ano, após ano, me sinto compelida a fazer, sem saber bem porquê, como se no mês de Dezembro se quebrasse a continuidade da vida para, num ressalto, entrar no ano que se aproxima. E muitas vezes foi em angústia, que me preparei para os novos 12 meses que aí vinham.
Porém, não sei se porque quase a sexagenar, se porque aprendizagens feitas me deram razões mais que suficientes para valorizar positivamente a vida, ou porque percebi (finalmente!) que lá porque o céu está nublado, não quer dizer que as estrelas tenham morrido, essa angústia  tem vindo a abandonar-me, até me deixar capaz de dizer:  "estou (quase) feliz!"
Sei que é politicamente incorreto dizermo-nos felizes. Se tiver que pedir desculpa, pedirei, como Sílvio Rodriguez faz na sua 'Pequeña Serenata Diurna', aos "muertos de mi felicidad", mas continuarei a considerar-me uma mulher (quase) feliz. 
E particularmente este ano, que me pareceu bem mais doce do que os anteriores.
Pois é! Gracias a la vida!
.
.
(Pintura de Henri Matisse)

Quinta-feira, 16 de Dezembro de 2010

A UM TI QUE EU INVENTEI...

.
Pensar em ti é coisa delicada.
É um diluir de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.

Um pesar grãos de nada em mínima balança,
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.

Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir.

Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas com o pensar te pudesses partir.
 

.
 ('A um ti que eu inventei', de António Gedeão)

Quarta-feira, 15 de Dezembro de 2010

NATAL...

SE...

 .
Fosse o rio
abraçaria o mar.
Fosse mar
abraçaria o ar.
Fosse ar
abraçaria o fogo.
Seria então
todo
.
(Poema de 'Fogo dos Rios' - Fernando Paixão)
('Amanecer', pintura de Julia Fernandez)

Terça-feira, 14 de Dezembro de 2010

OLHÓ DESCARAMENTO!!!

EE UU acusa a Berlusconi de querer controlar los contenidos de Internet

.

SEM DÚVIDA UMA CANÇÃO DE INVERNO...

.
Ou, se preferirmos:
.

BILHETE DE IDENTIDADE...

Última estrofe:
إذَنْ!
سَجِّلْ بِرَأِسِ الصَّفْحِةِ الْأَولى
أنا لا أَكْرَهُ النَّاس
ولا أسْطُو عَلى أَحَدٍ
وَلَكِنِّي.. إذا ما جُعْت
آكُلُ لَحْمَ مُغْتَصِبي
حَذارِ..
حَذارِ..
مِنْ جُوعي 
وَمِنْ غَضَبي


(...)

toma nota:
eu sou árabe

tu roubaste os pomares dos meus avós
e a terra que lavrei

eu e os meus filhos todos,
e não nos deixaste nada, nem a nenhum dos meus netos,

senão estes penedos.
pois vai o vosso governo
levá-los, como se diz?

portanto
toma nota
à cabeça da primeira página:
eu não odeio os homens
e não ataco ninguém
,
mas se tiver fome
como a carne do meu usurpador.

cuidado
cuidado

com a minha fome
e com a minha fúria.


(Mahmûd Darwîsh, numa tradução de André Simões)

Segunda-feira, 13 de Dezembro de 2010

Domingo, 12 de Dezembro de 2010

CASTAFIORE DO OESTE E SEU MARIDO AMESTRADO ...

"Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada,
Um pão bem quente com manteiga à beça,
Um guardanapo e um copo d'água bem gelada.
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que eu não estou disposto a ficar exposto ao sol.
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol
.
(...)"
.
.
O meu café matinal foi tomado numa vila do oeste, com  uma belíssima praia em frente, hoje em tonalidades menos azuis, mais em cinzento claro.
Nesta época do ano a vila é  um  lugar pacato. Esta manhã quase só se ouvia o mar, às vezes o vento, e todas as pessoas que se encontravam no café  tinham o ar sereno de quem goza um domingo sem tarefas urgentes, estando a maior parte delas, tal como eu,  a ler  calmamente o jornal.
De repente chega um casal de meia idade e ela, com um ar enfadado e uma voz agudíssima, diz de rajada: Não posso ficar nesta mesa! Vem muito frio de lá de fora! Se a porta ficar aberta, vou-me embora! Aquele jornal está a marcar lugar, ou posso sentar-me ali? Ai é vosso? Então porque está de cima da mesa? Posso portanto fechar a porta? Se não puder, também não fico aqui! Hoje vocês não têm o Correio da Manhã? Onde está? E o suplemento de domingo?
O companheiro, verdadeiro marido amestrado, fechava e abria a porta nervosamente, deixando-a por fim fechada; pegava no Público que se encontrava na mesa ao meu lado e mostrava-o à dona do café,  ilustrando as palavras da sua anafada e autoritária senhora. A dona do café, gaguejando,  tentava responder-lhe, mas  só tinha tempo de verbalizar uns monossílabos, umas interjeições sem sentido; o aflito marido arrumava  então o Público no suporte de parede para jornais,  começando de imediato  a procurar o Correio da Manhã, que lhe foi arrancado de supetão  pela sua Castafiore, que  continuava a falar, no mesmo tom agudíssimo,  agora  pedindo duas torradas, uma bem tostada, outra pouco; uma com muita manteiga, outra quase sem manteiga; um galão clarinho  só morno e um café em chávena escaldada; (uff!) ao mesmo tempo que apontava ao marido obediente o caminho do balcão e fulminava, com um olhar de bruxa má, uma criança que acabava de abrir novamente a porta, a tal que ela exigia fechada...
E eu, temendo que algum copo (ou mesmo o vidro da montra!) se partisse,  interrompida que estava a leitura do jornal, saí, substituindo na minha cabeça a voz estridente da Castafiore do oeste, pela memória  deste tema de Noel Rosa,  precisamente na voz de Luanda Cozetti, acompanhada pelo baixo de Norton Daiello:
.

UM MURO DE MISTÉRIO E DE FEITIÇO...


Deixa que os outros cantem o teu corpo
que dizem
feiticeiro e sedutor,
e, na volúpia vã do pitoresco,
entoem madrigais á tua dor.

Deixa que os outros cantem teus
requebros
nos passos de massemba e quilapanga,
e teus olhos onde há noites de luar,
e teus beiços que têm sabor de manga.

Deixa que os outros cantem
os teus usos
como aspectos formais da tua graça,
nessa conquista fácil do exotismo
que dizem descobrir na nossa raça.

Deixa que os outros cantem o teu corpo,
na captação atónita do viço
e fiquem sempre, toda a vida, a olhar

um muro de mistério e de feitiço...

Deixa que os outros cantem o teu corpo
- que eu canto do mais fundo do teu ser,
ó minha amada, eu canto a própria
África,
que se fez carne e alma em ti, mulher!

.
('Poema para a Princesa', de Geraldo Bessa Victor - Poeta Angolano)
.
(Quadro da pintora caboverdiana, Edith Borges)

Sábado, 11 de Dezembro de 2010

EM TERRAS DE PIMENTA E MARAVILHA...

 ... Com sonhos de prata e fantasia!
.
 .
Andando assim neste trabalho, tornou-lhes outra vez a saltar o vento a lés-sudoeste e temporal desfeito, e já então parecia que Deus era servido do fim que ao depois tiveram. E indo com a mesma vela arribando outra vez, lançando-lhe o leme à banda, que não quis a nau dar por ele e toda se pôs de ló; o vento, que era bravo, lhe levou o papa-figo da verga grande. Quando se viram sem vela, e que não havia outra, acudiram com diligência a tomar a vela de proa, e se quiseram antes aventurar a ficar de mar em través que ficarem sem nenhuma vela. O traquete de proa não era ainda acabado de tomar quando se a nau atravessou, e em se atravessando lhe deram três mares tão grandes que dos balanços que a nau deu lhe arrebentaram os aparelhos e costeiras da banda de bombordo, que não lhe ficaram mais que as três dianteiras.
.
(Texto de 'RELAÇÃO DA MUI NOTÁVEL PERDA DO GALEÃO GRANDE S. JOÃO')
('História Trágico-Marítima', óleo sobre tela de Maria Helena Vieira da Silva)

Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2010

É COMO COSTUMA DIZER-SE: VIVENDO E APRENDENDO...

A JUVENTUDE, POIS! A JUVENTUDE!...

... a do poeta e a minha
(longínqua e  esbatida)!
.
.
Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido.

. ***
Chegava o mês de Maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

. ***
E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não sei dizer

. ***
Só sei que tinha o poder de uma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só dizer

.
(Ruy Belo)

Quinta-feira, 9 de Dezembro de 2010

RETRATO DO ESCRITOR...

 ... QUE, NESTA MATÉRIA, TAMBÉM PODE SER O MEU!...
.
"Sou uma pessoa feliz e ao mesmo tempo infeliz, ou pelo menos não tão feliz assim. Porque vivo neste mundo, vivemos todos, num mundo que não devia ser o que é. Não só injusto, mas cruel. Não percebo como é que após séculos e séculos, milénios até, de estudo, de cultura, ciência, arte, filosofia, de todas as maravilhas que ficaram por aí, somos esta espécie absolutamente desprezível. Neste sentido, desprezo-me a mim mesmo por lhe pertencer. Ah! Tem gente maravilhosa, tem heróis, santos...
Tem, mas como não são eles que governam o mundo... A bondade hoje é alguma coisa que dá vontade de rir! E isso (basta-me pegar num jornal, saber o que se passa pelo mundo) dá-me um mal estar todos os dias...
Por isso podemos dizer que esta casa é uma pequena ilha de harmonia onde vivem pessoas que estão bem e de bem uma com a outra; mas o mundo lá fora... Há quem vá vivendo conformado, ou dizendo que não pode fazer nada; outros, porém, em que, quase dá vontade de dizer: desgraçadamente, me incluo, não se conformam.
.
Não. Não tenho nenhum motivo para ter esperança. No plano estritamente pessoal, podemos ter razões para isso. Mas se falarmos numa esperança que nos envolva a todos, ela não é possível num mundo como este. Como será daqui a 50 ou 100 anos? Estamos no fim de uma civilização e não temos ideia nenhuma do que vem aí. Nem sabemos se no futuro o ser humano terá alguma coisa a ver com o actual, ou se não será outra coisa que deva passar a chamar-se de forma diferente.
.
Os ventos da História nem sempre são favoráveis. Como digo em A Caverna, é hoje patente que  o centro comercial é o único lugar limpo, iluminado, colorido, seguro, com música, que as pessoas frequentam e onde são felizes - nas cidades, ou mesmo nas vilas e até nas aldeias!
Antigamente, a mentalidade humana formava-se na grande superfície de uma catedral; hoje forma-se na grande superfície de um centro comercial. O que diz tudo."
.
(de 'Conversas com Saramago' - entrevistas feitas ao escritor por José Carlos de Vasconcelos)

PARA DESENTRISTECER, UMA COISA DOCE, TERNURENTA MESMO...

Quarta-feira, 8 de Dezembro de 2010

WIKILEAKS! ORA CÁ ESTAMOS OUTRA VEZ...

Desde o último post, o homem da WikiLeaks, Julian Assange, foi preso na Grã Bertanha e será certamente extraditado para a Suécia (onde terão sido cometidos os "crimes sexuais" de que é acusado). Depois, chegará a vez dos  Estados Unidos pedirem a sua extradição, claro.
Entre muitas outras coisas extraordinárias, li hoje que  um banco Suiço (um dos bancos que aceitam dinheiro de todos os crápulas do mundo!) decidiu congelar a conta de Julian Assange, por ele, imagine-se, não residir no país. É uma perseguição em todas as frentes, pois!
Mas, como se diz aqui"se em vez dos Estados Unidos o seu alvo tivesse sido a China ou mesmo a Rússia, tinha garantido a nomeação para o Prémio Nobel da Paz em 2011, com todos os que agora o empurram para o abismo, sentados a aplaudi-lo veementemente."
.
"Os últimos desenvolvimentos no caso WikiLeaks, nomeadamente o corte unilateral de relações por parte da Amazon, PayPal e Mastercard com o site, levantam sérias dúvidas no que diz respeito à liberdade de expressão e de informação na Internet bem como a promiscuidade entre o poder político e poder económico que resulta numa tentativa de silenciar um site incómodo.  (...)   Hoje é a WikiLeaks, amanhã pode ser um blog pessoal, depois de amanhã um jornal ou uma estação de televisão. A WikiLeaks é mais do que uma pessoa, a WikiLeaks somos todos nós. Todos aqueles que acreditam na liberdade de expressão e na transparência da informação. Todos somos a Wikileaks."
(Mais informações em http://on.fb.me/ApoioWikiLeaks ou no Twiter: http://PT_Wikileaks/) 

PARA ESTE DIA FERIADO...

"El desafío de mirarme"
.
 .
(Óleo sobre papel de Cynthia Novillo Almada Año

Terça-feira, 7 de Dezembro de 2010

MEMÓRIAS (MUSICAIS E NÃO SÓ)...

.

APENAS O AMOR SERIA ETERNO...

.
como lobos em períodos de seca
crescemos por toda a parte
amámos a chuva
amámos o outono
um dia até pensámos
em enviar uma carta de agradecimento ao céu
com uma folha de outono como selo de correio
acreditávamos que as montanhas desapareceriam
os mares se dissipariam
apenas o amor seria eterno
de súbito separámo-nos
ela gostava de sofás compridos
e eu de longos navios
ela gostava de sussurrar e suspirar nos cafés
eu gostava de saltar e gritar nas ruas
e, apesar de tudo,
os meus braços vastos como o universo
estão à espera dela...
.
('Inverno', de Muhammad Al-Maghut - tradução de Adalberto Alves)
.
('Amor and Psyche', óleo sobre tela de Edvard Munch)

Segunda-feira, 6 de Dezembro de 2010

REGISTO PARA MEMÓRIA FUTURA...

A GRANDE DEMOCRACIA!
.
.
Há uns dias a WikiLeaks revelou mais uma série de documentos respeitantes à política externa americana e anunciou a existência de mais alguns  milhares deles  (250 mil) que falam de espionagem, intriga, corrupção, invenções, conspirações, apoio a golpes de estado, etc e mais etc.
Entretanto:
- A empresa que fornecia endereço ao site wikileaks.org, a EveryDNS, interrompeu a prestação desse serviço.
- O Departamento de Justiça dos EUA iniciou uma investigação criminal contra a ONG (que certamente concluirá existir matéria relevante para uma acusação).
- A Interpol expediu um mandado de prisão contra o fundador do WikiLeaks (por crimes sexuais, claro!).
- Um senador exigiu que todas as companhias americanas cessassem quaisquer contactos com a WikeLeaks e, ao que parece, esse seu 'desejo' foi acatado. (A Amazon, por exemplo, retirou a página da WikiLeaks da sua rede)
- O Departamento de Estado proíbe os seus funcionários de acederem ao site, mesmo que de sua casa.
- Os estudantes da universidade da Colúmbia, por exemplo,  foram avisados de que não deveriam citar a WikiLeaks nas suas páginas de Twitter ou de Facebook.
.
e etc...
.
(e eu tinha que o registar, mesmo que seja mais amante de poesia do que de política internacional, ou precisamente por isso mesmo)

E ASSIM PODERIA COMEÇAR UM ZOOBLOG...

Os gatos não se podem decifrar!
(Depois dos cães, os gatos, mesmo que agora eu não os tenha, ou eles me tenham a mim, como diria Agostinho da Silva.)
 
  ,
Los animales fueron
imperfectos,
largos de cola, tristes
de cabeza.
Poco a poco se fueron
componiendo,
haciéndose paisaje,
adquiriendo lunares, gracia, vuelo.
El gato,
sólo el gato
apareció completo
y orgulloso:
nació completamente terminado,
camina solo y sabe lo que quiere.
El hombre quiere ser pescado y pájaro,
la serpiente quisiera tener alas,
el perro es un león desorientado,
el ingeniero quiere ser poeta,
la mosca estudia para golondrina,
el poeta trata de imitar la mosca,
pero el gato
quiere ser sólo gato
y todo gato es gato
desde bigote a cola,
desde presentimiento a rata viva,
desde la noche hasta sus ojos de oro.
No hay unidad
como él,
no tienen
la luna ni la flor
tal contextura:
es una sola cosa
como el sol o el topacio,
y la elástica línea en su contorno
firme y sutil es como
la línea de la proa de una nave.
Sus ojos amarillos
dejaron una sola
ranura
para echar las monedas de la noche.
Oh pequeño
emperador sin orbe,
conquistador sin patria,
mínimo tigre de salón, nupcial
sultán del cielo
de las tejas eróticas,
el viento del amor
en la intemperie
reclamas
cuando pasas
y posas
cuatro pies delicados
en el suelo,
oliendo,
desconfiando
de todo lo terrestre,
porque todo
es inmundo
para el inmaculado pie del gato.
Oh fiera independiente
de la casa, arrogante
vestigio de la noche,
perezoso, gimnástico
y ajeno,
profundísimo gato,
policía secreta
de las habitaciones,
insignia
de un
desaparecido terciopelo,
seguramente no hay
enigma
en tu manera,
tal vez no eres misterio,
todo el mundo te sabe y perteneces
al habitante menos misterioso,
tal vez todos lo creen,
todos se creen dueños,
propietarios, tíos
de gatos, compañeros,
colegas,
discípulos o amigos
de su gato.
Yo no.
Yo no suscribo.
Yo no conozco al gato.
Todo lo sé, la vida y su archipiélago,
el mar y la ciudad incalculable,
la botánica,
el gineceo con sus extravíos,
el por y el menos de la matemática,
los embudos volcánicos del mundo,
la cáscara irreal del cocodrilo,
la bondad ignorada del bombero,
el atavismo azul del sacerdote,
pero no puedo descifrar un gato.
Mi razón resbaló en su indiferencia,
sus ojos tienen números de oro.
('Oda al gato' - Pablo Neruda)

CÃO AQUI, CÃO ALÉM, E SEMPRE CÃO...



Estes dois foram apanhados na rua. São dois rafeiros muito afetivos, mas que se odeiam!
E odeiam-se apenas porque não nos querem partilhar, isto é, porque são ciumentos. Ora como o ciume nasceu cego e morreu surdo, não há forma  de os convencer que nada têm a temer e lá temos que  os manter sempre separados.  Juntos, só mesmo neste post.
Cães-problema, como diria O'Neill...



Cão passageiro, cão estrito, 
cão rasteiro cor de luva amarela,  
apara-lápis, fraldiqueiro, 
cão liquefeito, cão estafado, 
cão de gravata pendente, 
cão de orelhas engomadas, 
de remexido rabo ausente, 
cão ululante, cão coruscante, 
cão magro, tétrico, maldito, 
a desfazer-se num ganido, 
a refazer-se num latido, 
cão disparado: cão aqui, 
cão além, e sempre cão. 
Cão marrado, preso a um fio de cheiro, 
cão a esburgar o osso 
essencial do dia a dia, 
cão estouvado de alegria, 
cão formal da poesia, 
cão-soneto de ão-ão bem martelado, 
cão moído de pancada 
e condoído do dono, 
cão: esfera do sono, 
cão de pura invenção, cão pré-fabricado, 
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija, 
cão de olhos que afligem, 
cão-problema...

Sai depressa, ó cão, deste poema!


(Alexandre O' Neill)

Domingo, 5 de Dezembro de 2010

QUE DIA! brrr...

 (mas a chuva é uma coisa boa...)
.

O DELÍRIO DO VERBO...

.
No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos 
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia, que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos —
O verbo tem que pegar delírio
.
(Manoel de Barros, em 'Uma dialética da invenção')

Sexta-feira, 3 de Dezembro de 2010

NUM FIM DE SEMANA MUITO FRIO...

... apetece-me espreitar a primavera!
.
.
('Espiando a la Primavera', óleo sobre madeira, de Marco Ortolan)

TEMOS RUAS, TEMOS PRAÇAS...

.
Mudam-se os tempos. Já
não sabemos as matinais canções
nem habitamos vilas morenas.
Toleramos serventes de pedreiro louros,
de preferência não legalizados. Queremos
um grande apartamento em condomínio
fechado, um ferrari, uma piscina, um topo
de gama de uma coisa qualquer.

Temos ruas, temos praças e pontes
com nome de revolução. Como todos
os países temos hino - nação valente
imortal. Tivemos canela e diamantes,
santos, barregãs e dinastias de
tiranos e servos. Andámos muito
no mar, trocando rotas e poderes,
escravos, inquisições e cruzes.

Agora, neste estreito
quadrilátero, de onde saímos
e mal regressámos, sem índias nem
quinto império - salvou-se o manuscrito do
Luís Vaz a nado - restam-nos a sardinha
e a conquilha - ao que consta cercadas
de barcos espanhóis - o bacalhau
que já não vem da Terra Nova, a memória
dos pescadores de baleias, esgotada a captura
nas ilhas.

Também temos o treze
de Maio, o negócio clandestino
das abortadeiras, a broa de Avintes,
os tintos, por enquanto de marca e
o leitão da Bairrada e o Benfica e
o Sporting e o Futebol
Clube do Porto.

Temos ruas, temos praças e
pontes com nome de revolução,
topónimos nebulosos que a distância
apagará. Apenas aquela rua
chamada Cantor Zeca Afonso
poderá surpreender o transeunte
se acrescentarem o aviso:

nunca quis uma rua
só para si.

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('Toponímia', de Inês Lourenço em 'Logros Consentidos')

Quinta-feira, 2 de Dezembro de 2010

A AMI, A RTP E A ANTENA3, NA CORRIDA 'SOLIDÁRIA' MAIS INJUSTA DO MUNDO...


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Pois é como diz a minha amiga Myriam Zaluar, na sua carta aberta:

IDEIAS PERIGOSAS...

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Mesmo que as ideias que dele constam não sejam verdadeiramente 'perigosas', nem reúnam quaisquer condições para nos mobilizar num consenso alargado,  a sua leitura é deveras interessante.
Uma delas então, assinada pela minha amiga Isabel Tadeu, é bastante mais que interessante e arrancou-me uma gostosa gargalhada!
Já imaginaram os ministros, num serviço de atendimento ao público do seu ministério, a ouvir em direto, ao vivo e a cores, as reclamações dos cidadãos que, com toda a razão, protestam contra as suas incompetências e malfeitorias?
Não li ainda o livro (encontrei-o  referenciado no último número do JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias) embora tenha uma ideia difusa de ter sido convidada para o seu lançamento. Acontece no entanto que,  num caldo de informação constante sobre os inúmeros e mais diversificados eventos, em que estamos virtualmente mergulhados, às vezes aquilo a que não vamos não passa por uma escolha consciente - fica-se antes por uma não escolha... 
A ideia da Isabel é a seguinte:
"Colocar um mês por ano os responsáveis políticos, do governo ou da Assembleia da República, em serviços de atendimento ao público, recursos humanos ou de aprovisionamento,  para que houvesse uma melhor perceção  da realidade que a vida de gabinete põe em risco."

Quarta-feira, 1 de Dezembro de 2010

LEI DA CAUSALIDADE?...

Que Fernando Pessoa me desculpe, mas:
.
A causa da desgraça é unicamente o aparecimento do rapaz! 
 (como sempre, aliás)
Que correu atrás dela!
(agravante a ter em conta, obviamente )
A fita e o jarro são naturalmente inimputáveis...
(e, neste caso, o vinho não conta, qu'inda o não havia)
Quanto à menina... 'só' era bonita!... 
... .
.
Levava eu um jarrinho
P'ra ir buscar vinho
Levava um tostão
P'ra comprar pão:
E levava uma fita
Para ir bonita. 
.
Correu atrás
De mim um rapaz:
Foi o jarro p'ra o chão,
Perdi o tostão,
Rasgou-se-me a fita...
Vejam que desdita!
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Se eu não levasse um jarrinho,
Nem fosse buscar vinho,
Nem trouxesse uma fita
Pra ir bonita,
Nem corresse atrás
De mim um rapaz
Para ver o que eu fazia,
Nada disto acontecia.
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(Fernando Pessoa - Poemas para Lili)

APAGANDO PRECONCEITOS...

Nem sempre há gavetas previamente etiquetadas para as pessoas.  É que algumas fogem aos esterótipos.  Nigel Kennedy é disso um exemplo!
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Y POR ESO...

De colores
De colores se visten los campos en la primavera
De colores
De colores son los pajarillos que vienen de afuera
De colores
De colores es el arco iris que vemos lucir

Y por eso los grandes amores
De muchos colores me gustan a mi
 
.
..