Regressávamos da praia todos os dias por aquela ponte. Pouco mais lembro do local concreto em que passámos estas férias. Talvez o apartamento fosse aquele em que o Fritz se balouçava nas cortinas, por onde trepava com a facilidade e a graça que só os felinos sabem. Ou talvez fosse antes aquela casa em que o Bolinha se transformou numa confusão de unhas, assustado na rua.
Não é simples aparência a importância que os gatos e as suas histórias deixaram nas nossas memórias. A nossa vida individual e familiar está marcada indelevelmente por todos os animais que nos tiveram como cuidadores e que nós tivemos como companhias. Mas, voltando a esta ponte, que percorriamos todos os dias na ida para a praia e no regresso dela, às vezes já tarde tardia, lembro que no fim dela havia um colorido bar, explorado por músicos sul-americanos, que programavam animadas noites de mojitos e cantigas chilenas. E lembro-me que foi aí que ouvi pela primeira vez o aforismo que cito em título desta mensagem, a propósito de uma coisa tão comezinha, quanto eu ter dito que ainda não sabia o que iria beber, mas que partilharia, entretanto, a bebida do meu companheiro de copos (e de vida).
"Escolhe a tua bebida! Olha que há um ditado muito antigo na nossa terra que diz que nenhuma árvore cresce na sombra de outra árvore!"
O aforismo pode não ser verdadeiro, mas não só me ficou bem registado na memória, como funcionou perfeitamente, no momento, como frase de marketing...
Ele é também é 'um cão como nós' e isso só não o entende quem não tem animais. Ele foi internamento, análises, ecografia, TAC. Ele é antibióticos e anti-inflamatórios. Mas as dores e a infeção continuam. Para a semana se verá o que os veterinários podem fazer mais por ele. Por agora, com os analgésicos, descansa das 'torturas' do dia. E dos anteriores.
Várias coisas me fizeram dormir mal, mas a que esta noite mais me
incomodou foi a imagem da polícia a identificar quem ontem estava
sentado numa roda em frente à igreja de Arroios (acho que é esse o nome,
que de igrejas nada sei).
Para que servem à polícia as identificações que vai colecionando?
Em que base de dados são guardadas?
Quem tem acesso a ele?
Em que circunstâncias?
O que são pessoas "já
referenciadas" como tantas vezes é dito por representantes das forças
policiais? Qual a disposição em que se baseia tal designação? É que eu
só sei o que são 'suspeitos' e 'arguidos', cuja definição está clara na
legislação penal. Se eu for para a rua tocar djembé e pintar umas madeixas coloridas no cabelo, isso faz de mim uma pessoa "referenciável"? E se for amiga de uns tantos?
E se conhecer dois ou três?
A coberto da nossa distração, real ou fingida, se vão minando todas as garantias de cidadania. Mas a História mostra-nos que a história é sempre assim: Primeiro vieram buscar as pessoas que usam rastas, como eu não as usava...
Depois vieram buscar as que se sentam na rua a cantar canções de
protesto, como eu não o faço, a não ser em dias e locais marcados... Depois vieram buscar os jovens todos, como eu o não sou... Depois.... (A completar como se entender. Seja como for, vai acabar mal!)
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(Fotografias acima tiradas ontem nos Anjos. Para uma meia dúzia de manifestantes, uma dúzia de carros da polícia. Pelo menos.)
Têm andado difíceis as coisas nos últimos dias. Sem tempo para me recompor de uma preocupação atrás de outra, deixei-me tomar pela ansiedade e, como costumo dizer, meio a brincar meio a sério, por uma superfície frontal fria, tendo esta sido mesmo de forte atividade associada a uma depressão cavada, com episódios de maus ventos e ocorrência até de alguma precipitação... Hoje, porém, comecei a tirar-me da chuva. E se o sol ainda não voltou a brilhar, como lhe seria exigível em finais do mês de maio, a verdade é que, lembrando uma citação recorrente, se nos permitimos ficar muito mal, então melhor será colocar-nos de vez "en el cajón de la basura." Ora para isso, eu ainda não estou, felizmente, preparada! Confesso que algumas notícias menos cinzentas me ajudam neste "levanta-te e anda!", mas também a conclusão, que deveria ter sido óbvia desde o princípio, de que algo está muito errado quando quem nos anima é quem tem fortes razões para estar bem pior do que nós.
"No fundo, o homem religioso é um hedonista. O instinto religioso das massas é um instinto de prazer, de ter tudo resolvido na vida. Deter-se só perante a Verdade é doloroso para o homem. A Realidade é muda e fria."
Há temas musicais que se agarram a nós de uma tal forma, que nos ficam uma segunda pele. Depois, nas curvas do tempo, perdêmo-los ou eles nos perdem a nós, vai-se o significado que tinham e deixam de nos remeter para espaços e pessoas da nossa vida. Ou passam a remeter-nos para onde não queremos e então até podem fazer-nos sair da nossa zona de conforto quando os ouvimos, que a vida é assim, feita de 'temporadas', como as séries televisivas. Este 'Samba de Orly' foi para mim um desses temas musicais. Viveu comigo muito tempo e depois ficou arrumado num cantinho da memória, donde saltou nos últimos dias.
E pronto! A Myriam Zaluar, protagonista desta história, já foi notificada da acusação de desobediência qualificada. Que rápida é a justiça quando trata de casos como este e que lenta se torna nos outros que bem conhecemos... A reação da acusada foi esta, que aqui se pode ler. A minha vem pela voz do Sérgio Godinho:
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Há quem mande obedecer (não há? lá isso há!)
há quem disso se encarregue (não há? lá isso há!)
e também há quem não tenha
ponta pr’onde se lhe pegue
Há partidos de direita (não há? lá isso há!)
que põem sempre a bola ao centro (não há? lá isso há!)
Embora não tenha sido essa a razão deste post (entenda-se por 'razão' o percurso dos meus pensamentos até chegar à escolha final do que vou postar) registo que o José Mário Branco fez ontem 70 anos.Crueldades de Chronos!...
"Há exactamente 43 anos, num domingo rotineiro para a maior parte dos portugueses, a minha vida mudou. Os homens maus levaram o meu pai." (Rita Veloso)
Ana Maria estava nervosa. Era dia de o Aurélio voltar para casa e ela aguardava o seu telefonema para lhe dar sinal de que a zona estava segura. Desta vez, não era necessário pendurar panos na janela ou ir marcar árvores pré-estabelecidas. Bastava ele telefonar e ela dir-lhe-ia que o Gustavo viria jantar. Não sei se o jantar da senha tinha data prevista, se bastava isto:
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— «O Gustavo vem cá jantar.» .
Ana Maria e Aurélio Teixeira de Barros eram os nomes que constavam nos seus BI falsos. Era fácil, na altura, conseguir um BI com uma identidade nova. À volta do Arquivo de Identificação havia sempre gente a quem se podia pagar (dois contos, seria?) para servirem de testemunhas. Bastavam duas pessoas que garantissem que nos chamávamos assim, que tínhamos nascido ali, naquele dia e daqueles pais, que morávamos acolá, que éramos casados. Ana Maria Teixeira de Barros. Muitos anos mais tarde, já depois do 25 de Abril, ainda o meu pai lhe chamava Ana Maria. Dos vários nomes que teve, este foi o que se aguentou mais tempo. Às vezes ouvíamo-lo começar, numa ponta da casa: «Ó, ó, ó...» O hábito era mais forte. Já nem ligávamos, todas sabíamos que era por ela que ele chamava. «Ó...» Ainda hoje, se oiço alguém gritar «Ó...», olho em volta à procura dela. A minha mãe só soube o verdadeiro nome dele em 1969, com a emersão forçada da clandestinidade. Conheceram-se sete anos antes. A casa dela e do marido era uma das muitas casas de apoio do Partido. Deram-lhe guarida. Pouco tempo depois, ela divorciou-se e mergulhou na clandestinidade com aquele homem de quem nem o nome sabia. .
— «Tu nasceste na clandestinidade» — explicava-me, quando me contava a minha pré-história, cheia de mudanças de casa, fugas, algumas perseguições. Aos oito anos, fiz uma troca com uma colega da primária: ela ensinava-me o que era uma prostituta, eu ensinava-lhe o que era a clandestinidade. Imensamente esclarecida, fiquei a saber que uma prostituta era uma mulher que se vendia por dinheiro. O que vendia e se haveria outras formas de pagamento, não percebi. A minha colega não ficou melhor. A clandestinidade era o prédio (secreto) onde viviam os comunistas. Tirando aquele complemento circunstancial de lugar — «tu nasceste na clandestinidade» —, nada explica a minha definição. Vivíamos no isolamento quase total, num universo de quatro, como nos desenhos infantis, mamã, papá, eu e a mana, com raríssimas incursões às casas dos vizinhos que partilhavam o famigerado prédio (raríssimas e às escondidas do meu pai, claro está, senão lá teríamos de nos mudar outra vez). .
Apaixonaram-se sem ela saber o nome dele nem qualquer pormenor da sua vida que não o ser um clandestino comunista, grande, bruto, mordaz e inteligente, que gostava de Pessoa, e com um olhar incisivo que mostrava que já tinha percebido o que estávamos a sentir ou a pensar, ainda antes de nós nos apercebermos de que sentíamos ou pensávamos fosse o que fosse. Bastou. Quando estava grávida, ele sugeria-lhe nomes para os filhos. Muitas vezes desconfiou de que ele ia buscar aqueles nomes horríveis à família e que pelo meio estaria o dele. É bem possível. .
Ficava sempre nervosa nos dias de regresso do Aurélio. Apurava o ouvido, a tentar detectar a motorizada, qualquer barulho inesperado a deixava alerta. Podia vir ele, podia vir a PIDE. Não que achasse que ele vergasse na tortura, mas não era só dele que dependiam... O Verdial tinha sido preso havia uns tempos e uma das casas que denunciou foi a deles. Por sorte, tinham-se mudado uns dias antes, pela simples coincidência de ela se ter cruzado na rua com um antigo controleiro, o que quebrava a segurança da casa. Daquela vez, antes da motorizada tinha de vir o telefonema. E já tardava. Não sabia o que fazer às mãos, tudo lhe caía. Manteve a rotina com as miúdas, refeições, banhos, brincadeiras. Uma com cinco anos, outra com dois e meio, não podia sequer desabafar. Ligou a televisão para se distrair. .
Era já de noite e as miúdas dormiam; entretinha-se com uma qualquer tarefa doméstica, quando, numa peça de teatro que passava na televisão, ouviu: .
— «O Gustavo não vem.» .
Não teve dúvidas sequer. Não era mais supersticiosa do que qualquer um, mas nesse momento soube. Soube que tinha de sair dali e de nos pôr em segurança. No dia seguinte, livrou-se do que pudesse ser comprometedor, emalou o essencial e fomos procurar refúgio na quinta de uns amigos, nos arredores de Lisboa. A mala incluía apenas duas ou três recordações de sete anos em comum: alguns livros do Pessoa e o «Aureliano», do Aragon, onde eu imagino que o meu pai se tenha inspirado para escolher o seu nome falso. Enquanto entrouxou sete anos e nas longas semanas que se seguiram, ouvia permanentemente o Bécaud a cantar-lhe ao ouvido. .
«Et maintenant que vais-je faire
De tout ce temps que sera ma vie
De tous ces gens qui m'indiffèrent
Maintenant que tu es partie» .
A história deste dia na vida da minha mãe, ouvi dezenas de vezes, a propósito disto ou daquilo. O meu pai nunca nos contou como foi o dia dele. Soube (pela minha mãe? Por amigos dele? Por ele, a contar a amigos? Não sei dizer) que foi preso numa reunião do C.C., juntamente com os «comparsas», e que adormecera pouco depois de chegar à prisão, para frustração da PIDE, amesquinhado que ficou o terror da tortura para que já esfregava as mãos. Um dia encontrei este relato, numa carta escrita em Peniche, no dia em que fez dois anos que foi preso. Infelizmente, o pragmatismo da minha mãe levou-o a reescrever uma carta inicial, sintetizando o dia em sete linhas. A original, mais desenvolvida, deve ter ido parar à lixeira da prisão. Mesmo assim, a sua personalidade analítica e a sua escrita irónica constroem um testemunho que vale a pena. Pelo menos para mim. .
«Esta é uma segunda carta. A primeira tenho-a para ali. (...) Já não sei bem como — e não gosto de reler-me — encontrei-me a descrever-te as primeiras horas da manhã deste dia 25 de Maio, mas em 1969; de como as coisas se foram reflectindo na minha cabeça, com uma lucidez, uma calma e também uma coragem de que no próprio momento se vai tendo consciência e espanta; de como as coisas se sucederam, levemente teatrais, às vezes sarcásticas, às vezes violentas, um pouco ridículas como todas estas coisas são, sempre muito tensas, até que – na posição mais incómoda, com espanto geral de todos os comparsas, no auge da tragédia (1.º acto) – adormeci profundamente como um justo. Depois tombara na indesculpável patetice de te contar um pouco destes 730 dias... Reli-me. Ouvi-te a falar-me de retórica, dos disfarces, da autenticidade. Finquei o olhar neste espaço fechado que me cerca e fui concluindo que era forçoso dar-te razão, que nada daquilo te poderia interessar senão muito literariamente (coisa que não sou) e que se impunha para nós ambos escrever-te uma outra carta. É esta.»
Com o fogo não se brinca porque o fogo queima com o fogo que arde sem se ver ainda se deve brincar menos do que com o fogo com fumo porque o fogo que arde sem se ver é um fogo que queima muito e como queima muito custa mais a apagar do que o fogo com fumo
('Fogo', Poesia de Adilia Lopes)
('Partículas de amor', pintura a óleo de Rogelio Hernandez Rogere)
É por dentro de um homem que se ouve
o tom mais alto que tiver a vida
a glória de cantar que tudo move
a força de viver enraivecida.
Num palácio de sons erguem-se as traves
que seguram o tecto da alegria
pedras que são ao mesmo tempo as aves
mais livres que voaram na poesia.
Para o alto se voltam as volutas
hieráticas sagradas impolutas
dos sons que surgem rangem e se somem.
Mas de baixo é que irrompem absolutas
as humanas palavras resolutas.
Por deus não basta. É mais preciso o Homem.
Ou de como sintonizar na música no meio de tanto ruído?
Compro a Visão, assim que saio de casa. Ontem ouvi nas notícias que uma "investigação sobre uma teia de lavagem de milhões" seria hoje publicada e quero lê-la. Vou para o café mais próximo e abro a revista, com uma chávena do meu habitual abatanado pingado, já sobre a mesa. Uma televisão na parede berra numa estridente voz feminina qualquer coisa sobre estrelar ovos. A minha atenção fica presa naquele tom desagradável e, a seguir, numa conversa sem qualquer sentido para mim, sobre coisas que não fazem parte das minhas preocupações. Volto à revista, de que começo a virar as páginas lenta e distraidamente. Um creme para as imperfeições da pele, um creme hidratante, um gel de limpeza. Um homem e o seu cão. Um after shave. Visão Júnior. Descontos Galp. Ganhe um Lancia. Lancia? Mas não era um relógio? "Se o seu relógio não é um Lância, lance-o fora e compre um Lância". Deve haver carros e relógios com o mesmo nome. Não faz lá muito sentido, ou fará? "Desafie as convenções!" Isso é comigo, mas não o é o novo Mazda. Os milagres acontecem com transplantes de sangue do cordão umbilical. Precisamos de milagres, mas não dos oferecidos por empresas estranhas com ou sem nomes complexos. Mais relógios, ou antes, agora sim, relógios. Na página oposta Gonçalo M Tavares escreveu em breves notas, propostas para o dia de hoje. O dia dele, não o meu. Crise - ficar sem telemóvel vai resolver-nos as dívidas? Não vai. Adiante. Radar mais e menos. Pedro Emanuel? Mariza Liz? Ah, Miguel Relvas e Alberto João. Pois. Como o Goldman Sachs lixou os gregos. Lixou, lixou! O que eu preciso de saber sobre o nuclear? Não me apetece. Um café com a cara de um ator de cinema. Fazer contas. Fazer bem não sei, mas também não estou pronta para começar a aprender agora. Uma casa construída ao contrário. Onde? Numa terra longínqua qualquer. OCDE números. E mais números. Uma risada estridente na televisão. Afinal onde está a teia? Fecho a revista, regresso a casa. Esqueço a revista numa mesa qualquer. Ligo o computador, vejo algumas publicações de 'amigos' a correrem aceleradamente numa faixa lateral. É tão rápida a publicação, que é hipnótico olhar para a lista. A descer, com nomes conhecidos e outros mais ou menso desconhecidos. Textos, músicas, causas, tudo se mistura numa grande miscelânea. Olho um quadro, coloco um 'like' e deixo o computador aberto na 'origem do mundo' de Gustave Courbet. A única coisa verdadeiramente não ignorável que encontrei!