SOBRE AS TECLAS
-
Tenho tido pouco tempo para as leituras neste mundo virtual. Um livro é melhor companheiro do que um Ipad e pode (ai se pode!) proporcionar-nos o imenso prazer da leitura em qualquer ambiente. Mesmo nos muito ensolarados, em que basta a aba de um dos meus chapéus para me proteger os olhos. Mesmo naqueles que, de tão barulhentos, parecem, como diz o meu marido, não ser capazes de nos deixar ouvir os nossos próprios pensamentos, quanto mais os do autor da obra que se lê. Acontece que eu pertenço a uma geração em que o estudo não era um ato solitário. Dele fazíamos trocas de dúvidas e de conhecimentos e nele intervalávamos as conversas sobre o último filme, o último romance, o último álbum musical a que tínhamos tido acesso, com uma bica e um bolo. Tudo isto num café barulhento e movimentado. Habituei-me, portanto, às leituras em qualquer sítio.
O acesso ao blog tem sido feito através do telemóvel e as leituras de outros muito perfunctórias. Os posts de ontem foram preparados e agendados no fim da tarde de domingo e a manhã do dia do meu aniversário foi dedicada às respostas no Fb a amigos e outros, que por lá me deixaram mensagens mil.
Hoje reabri alguns dos blogs e sites que gosto de ler e reencontrei escritas, reflexões e partilhas de pontos de vista, que sempre me enriquecem, esquecendo a tortura que me é feita nas redes sociais, com as confusões entre "há" e "à" (e às vezes até entre "ah" e "há"!) as vírgulas sistematicamente a separar o pobre do sujeito do seu predicado (não por lapso, que esses são naturais) os pretéritos perfeitos dos verbos transformados em imperfeitos ortograficamente, com hífen a desterrar terminações que deveriam ficar juntinhas ("queria-mos" muito saber como escrever, mas "esquece-mos" o que nos ensinaram. Pois!). Isto para não falar das pasteladas peganhentas (meladas seria uma classificação de que gosto, por isso a não uso) atribuídas, sabe-se lá por que razão (outro problema: "por que" e "porque"...) a Shakespeare, Luís Fernando Veríssimo, Clarice Lispector, Vinícius, Fernando Pessoa, etc, etc.
Não quero dizer com isto que nos blogs não se encontrem erros que antigamente se chamavam de palmatória, mas que agora é politicamente incorreto classificar. Dói, já o disse aqui, quando esses erros saem das teclas de professores, especialmente se forem dos que ainda usaram palmatória, ou de quem passa a vida a falar da ignorância dos jovens, ou ainda de quem clama amor à língua portuguesa, bramando contra o acordo ortográfico. Sobra-nos então uma vontade... (quase) assassina!
Hoje estou então de descanso. É que amanhã há mais! Festa.
-
.
(Quadros de Fábio Hurtado)